Chegámos a Mai Chau já no lusco-fusco, depois da maratona de transportes desde a ilha de Cat Ba. Saímos do centro e caminhámos durante uma meia hora, já quase sem luz, até chegarmos a uma aldeia onde vivem pessoas da etnia minoritária White Thai. Ficámos hospedados na casa da Srª Chung, que era muito simpática e tinha jeito para o negócio.
Devido à relativa proximidade com Hanói, Mai Chau recebe turistas há já vários anos, que ali vão para conhecer a cultura da etnia White Thai e ficam a dormir em casa dessas pessoas. A Srª Chung recebe turistas há 15 anos e, além da casa tradicional onde ficámos hospedados, está a construir um hotel moderno porque percebeu que há pessoas que gostam dum nível de conforto que as casas tradicionais não proporcionam.
Devido à presença assídua de turistas, esta homestay não foi muito diferente de ficar numa guesthouse. Estávamos numa casa tradicional, sobre estacas, mas tínhamos um quarto só para nós que apesar de extremamente básico, era espaçoso e tinha uma cama confortável. O jantar e o pequeno-almoço estavam incluídos e foram deliciosos.
No dia seguinte de manhã, alugámos umas bicicletas e passeámos a manhã toda pelos campos de arroz e por pequenas aldeias.

De bicicleta por Mai Chau
À noite, chegou um grupo grande de turistas e a Srª Chung decidiu organizar um pequeno espectáculo com música e danças tradicionais, foi muito engraçado.
No dia seguinte de manhã continuámos a nossa odisseia pelo Vietname remoto e fomos até Son La. Primeiro, ainda em Mai Chau, apanhámos um autocarro que nos deixou no cruzamento da estrada principal, a uns 5 km de Mai Chau. Depois esperámos uns 5 minutos e passou um autocarro que mandámos parar e no qual entrámos. Já lá dentro começou a discussão por causa do preço a pagar. Estávamos a ser roubadíssimos no preço e pedi as malas de volta para sairmos do autocarro até que lá nos entendemos num valor, mesmo assim muito superior ao que os Vietnamitas pagavam. O Vietname está cheio destes esquemas manhosos em que fazem os turistas pagar mais por quase tudo, muitas vezes mais do dobro do preço correcto.
Os autocarros no Vietname servem para transportar tudo: pessoas, malas de viagem, caixas de vegetais, galinhas e tudo o que possam imaginar. Nesta viagem de Mai Chau para Son La meteram uma mota dentro do autocarro!

Um dos autocarros que apanhámos, com as nossas mochilas no tejadilho
A viagem até Son La demorou umas 5 horas e não foi muito agradável, pela altercação inicial por causa do preço dos bilhetes, pelo desconforto dos bancos e pela bexiga que apertava imenso na última hora de viagem. Quando chegámos, a Catarina foi a correr à casa de banho e eu tive de ficar com as malas; não sei como é que me aguentei!
Na estação de autocarros vimos um casal de turistas, que estavam só a trocar de autocarro e estes foram os únicos turistas que vimos em Son La.
Fomos a pé da estação até ao centro da cidade, uma caminhada de 5 km, e pelo caminho as pessoas iam acenando e dizendo “hello”. Estavam estupefactos e animadíssimos por verem dois turistas!
O mais estranho é que Son La ainda é uma terra grande e até razoavelmente desenvolvida. Ficámos hospedados numa guesthouse fraquinha, onde ninguém falava Inglês, tal como no resto da cidade. As pessoas eram todas muito simpáticas mas a barreira linguística foi impossível de ultrapassar. Conseguíamos o básico (estadia, comida, transportes) mas ficava por aí.
Depois de instalados andámos pela cidade até chegarmos a um pequeno mercado onde ficámos durante algum tempo a beber uma cerveja e comer umas pevides, enquanto observávamos a vida quotidiana das pessoas. Depois fomos jantar ali pela zona e entre pés de galinha, moelas e asinhas grelhadas, fomos pela última opção…
Regressámos à guesthouse e pelo caminho lá íamos continuando a responder aos “hellos” com um sorriso na cara. Houve uma pessoa que ainda meteu alguma conversa connosco mas ficou-se pelo “What’s your name?”, “Where are you from?” e “Goodbye”.
De manhã, fizemos o caminho de volta à estação para seguirmos viagem até Dien Bien Phu, quase na fronteira com o Laos. Chegámos lá e o autocarro da manhã já tinha partido; tivemos de esperar 4 horas pelo próximo…
Como comprámos os bilhetes na estação, desta vez não fomos enganados, mas a viagem foi mais do mesmo: desconforto, malta a vomitar a toda a hora (assim que entramos no autocarro dão logo saquinhos de plástico…), sobrelotação (no corredor do autocarro põem uns bancos de plástico a fazer de lugares extra, onde cabem 4, eles metem 6). A Catarina toma sempre um Vomidrine, para aguentar as refeições no estômago e adormece rapidamente, porque os comprimidos do enjoo são tiro e queda: 30 minutos depois já está ferrada! Eu, que devido a muitos anos de rally-papers, aguento-me bem, vou acordado a assistir àquele espectáculo.
A vista da janela era linda, mas com tanta curva e pessoas dentro do autocarro era difícil de apreciar. E para piorar, pouco depois de partirmos estávamos numa zona com nevoeiro, portanto não se via nada.
Chegámos a Dien Bien Phu e aquilo era mais uma terra perdida nas montanhas do Norte do Vietname. Encontrámos rapidamente uma guesthouse e jantámos ali pela zona. Como chegámos já quase de noite, decidimos ficar mais um dia para podermos explorar a cidade.
Dien Bien Phu foi onde, a 7 de Maio de 1954, os Franceses foram derrotados pelos Vietnamitas numa batalha que marcou o início do fim dos dias de Indochina para os Franceses.
Visitámos a colina onde se deu a batalha decisiva, onde podíamos andar pelas trincheiras e compreender melhor o que ali se passou. Depois disso fomos ver o cemitério, logo ali ao lado, onde estão sepultados milhares de combatentes Vietnamitas.

Trincheiras em Dien Bien Phu

Cemitério de combatentes Vietnamitas
No dia seguinte levantámo-nos bem cedinho e apanhámos um autocarro às 05:00 da manhã para Sin Ho. Quando chegámos à estação e à pergunta “para onde vais?” respondi “Sin Ho”, o gajo que me fez a pergunta riu-se, como quem diz “este gajo é parvo”!
Mais 6 horas num autocarro e chegámos a Sin Ho e descobrimos o local onde “Judas perdeu as botas”, foi ali, em Sin Ho.
Aquele lugar só tem um hotel, e há um autocarro que chega a Sin Ho e outro que sai de Sin Ho, um por dia.
Fomos até ao mercado e as pessoas olhavam-nos com estranheza. Claro que ninguém falava Inglês e tal como em Son La arranjámos estadia, comida e foi isso.
Passeámos pela aldeia, vimos miúdos a jogar futebol e entretanto chegou um nevoeiro cerrado que não se via nada.
Voltámos para o hotel e esperámos que o dia passasse para podermos ir embora dali…

Sin Ho, onde Judas perdeu as botas
Mais um dia, mais uma viagem. Saímos de Sin Ho de manhã em direcção a SaPa, onde voltaríamos, finalmente, à rota turística.
SaPa é famosa pelas vistas majestosas e pelas estadias com famílias locais. Vistas, só do nevoeiro, portanto restava-nos a homestay. No hotel onde ficámos organizavam, mas era com grupos grandes e não me agradou. Fomos a uma agência de turismo responsável e, além de não me agradar muito o programa, era extremamente caro. Quando saímos dessa agência, fomos para a rua pensar no assunto e entretanto fomos abordados por uma senhora, Mama Lili de seu nome, com quem engracei desde o primeiro momento.
Ela estava atentar vender-nos uma homestay com ela. Íamos num trekking até casa dela, dormíamos lá e no dia seguinte outro trekking pelas aldeias da zona até regressarmos a SaPa. A Catarina não estava nada convencida e eu estava mas ao mesmo tempo não sabia bem o que fazer. Com a nossa indecisão o preço baixou de 60 dólares para 55 e consegui convencer a Catarina a irmos com a Mama Lili. Marcámos encontro com ela para o dia seguinte, no mesmo local, às 09:00 horas da manhã. Ela que já estava escaldada de várias pessoas que não cumpriram os acordos, dizia-nos “tomorrow, for sure” e eu respondia “yes, tomorrow, for sure”.
E “tomorrow” lá estava ela, ainda antes da hora combinada, toda contente por termos aparecido. Começavam aqui dois dias memoráveis e uma das melhores experiências de toda a viagem.
O trekking até casa dela não foi fácil, pois tinha chovido e o caminho estava todo lamacento. A Mama Lili é uma senhora já com uns 60 anos ou mais, mas nas partes mais difíceis ia sempre a segurar o braço da Catarina para ela não escorregar. As vistas eram inexistentes devido ao nevoeiro que continuava presente, mas a subida, apesar de difícil, foi agradável.

A caminho de casa da Mama Lili
Chegámos finalmente a casa dela, que é extremamente modesta, conhecemos o resto da família (filho, nora e 5 netos) e passámos ali o resto do dia e a noite, a ver e participar na vida daquela família da etnia Black Hmong.

Alpendre da casa

Cozinha

Sala de estar
A Mama Lili ficou viúva há muito tempo e teve de criar os filhos sozinha. Quando o turismo começou a surgir em SaPa ela começou por ir vender artesanato e, há 7 anos, começou a fazer de guia de trekking e a receber pessoas em casa. Aprendeu a falar Inglês ouvindo os estrangeiros e, apesar de limitações óbvias, a comunicação fazia-se razoavelmente bem. Na etnia Black Hmong, as mulheres assumem um papel secundário mas naquela família o pilar era a Mama Lili.
Na manhã seguinte, apesar de estar a chover, deixámos a casa para trás e fomos visitar algumas aldeias de várias etnias diferentes e a Mama Lili ia-nos explicando as diferenças nos trajes tradicionais de cada etnia. Pelo caminho parámos numa escola onde estudava uma neta dela e a miúda acabou por vir connosco, depois de se fartar de chorar e da avó ter ido falar com a professora. Era uma escola com internato onde os miúdos passam a semana inteira sem ir a casa. Como já eram umas 11:00 horas de sexta-feira, deixaram-na sair mais cedo e ela ficou toda contente.
No final do trekking regressámos de mota a SaPa onde almoçámos com a Mama Lili no mercado. Tirámos uma foto juntos e despedimo-nos, apesar de nos apetecer continuar com ela. Ela gostou tanto de nós que nos ofereceu pulseiras e às tantas tivemos de recusar mais ofertas porque ela queria dar-nos muitas coisas. Ela pediu-nos se podia ficar com uma cópia da foto e combinámos encontrarmo-nos às 17:00 horas.
Voltámos ao hotel, tratámos de mudar de roupa e tomar banho e às 17:00 lá fomos para a porta da Igreja onde tínhamos combinado o encontro. Não se via nada por causa do nevoeiro mas esperámos quase 40 minutos por ela até que desistimos… Tinha ficado com o número dela, por isso fomos comprar um cartão SIM local, que não foi nada fácil de comprar, e liguei-lhe. Pelo telefone foi muito mais difícil de entender o seu Inglês mas percebi que tinha ido para casa porque estava a chover e muito frio, o que era verdade.
No dia seguinte de manhã, fomos imprimir a foto e andámos à procura dela, mas não a encontrámos. Tínhamos de ir embora de SaPa por isso liguei-lhe novamente e nem 5 minutos depois estávamos novamente juntos. Explicou-nos que também andava à nossa procura, até tinha ido ao nosso hotel, mas não nos conseguia encontrar.
Demos-lhe a foto e despedimo-nos mais uma vez. Apetecia-nos a todos ficar mais tempo juntos, mas era altura de seguir viagem.

Caminhada de regresso a SaPa

A foto que imprimimos e oferecemos à Mama Lili
Na estrada novamente, cerca de 40 minutos depois estávamos em Lao Cai onde seguimos noutra viagem de autocarro, de 3 horas, para Bac Ha, o nosso destino seguinte.
A grande atracção de Bac Ha é o mercado de Domingo. É um mercado grande e muito interessante onde se vende tudo: roupas e trajes tradicionais, tecidos, tapetes, carne, peixes, legumes, animais vivos desde búfalos a cães, tudo e mais alguma coisa.

Talho

Tecidos tradicionais
No dia seguinte fizemos um trekking só os dois, com um guia local. Visitámos várias aldeias, uma escola e, como não havia nevoeiro, tivemos vistas deslumbrantes. O ponto alto foi quando parámos na casa de um homem que nos ofereceu várias bebidas, ainda fez umas danças para nós e tocou um instrumento musical esquisito, típico da região.

Trekking perto de Bac Ha

Aula de educação física
Voltámos para Bac Ha e sentámo-nos num café à espera que chegasse a hora do nosso autocarro nocturno para Hanói. Pouco depois chegou um casal de “cotas” que vive na Nova Zelândia e que tínhamos conhecido durante o trekking umas horas mais cedo. Acabámos por ficar umas 4 horas a conversar e o tempo passou num instante.
Fomos para a estação de autocarros onde nos esperava um autocarro “sleeper” que nos levaria numa viagem de 11 horas até Hanói.
Na capital passámos um dia, em que basicamente descansámos e começamos a estudar itinerários para a Tailândia.
Na quarta-feira, 17 de Dezembro, fomos bem cedinho para o aeroporto onde apanhámos o avião para Banguecoque, local onde começaria um novo capítulo da nossa viagem.
Daniel