O Sentido de Viajar

Nos últimos dias que passámos na quinta do Wat e da Poh tivemos a companhia da Corinne, da Evanna e do Marlin, um miúdo Alemão de 18 anos, que tinha vindo da Alemanha directamente para aquela quinta e que estava a iniciar uma viagem de 6 meses pelo Sudeste Asiático. Viu em mim uma referência, não só de alguém mais velho mas também de alguém que já andava a viajar há vários meses.

Fez-me imensas perguntas nos poucos dias em que convivemos na quinta e na véspera de irmos embora, já à noite, perguntou-me: “Daniel, qual é o sentido de viajar?” A resposta ficou para a manhã seguinte.

Muitos meses antes, fizeram-me a mesma pergunta num workshop que fizemos no Museu do Oriente intitulado “A Arte de Viajar”, orientado pela Miguta Água Silva, viajante experiente e que, além de nos ter dado dicas preciosas foi também uma inspiração para iniciarmos a nossa aventura. Tanto nessa ocasião, como na quinta, tive dificuldades em responder à questão.

Disse ao Marlin que as pessoas viajam por motivos diferentes. Algumas para conhecer novas culturas, outras pela gastronomia, outras para conhecer novas pessoas, ter experiências enriquecedoras… Cada pessoa viaja por um motivo diferente. A resposta vaga não era o que ele queria ouvir mas chegou a nossa hora de ir embora e a conversa ficou por ali.

A pergunta ficou na minha cabeça durante algumas semanas. Dei-lhe uma resposta vaga porque na verdade não lhe sabia responder, ou pelo menos explicar, o que é me fazia viajar.

Foi na viagem de barco quando saíamos de Don Khon, que a resposta surgiu. Era manhã cedo, o Mundo estava ainda a despertar. Apesar do barulho do motor e das conversas entre tripulantes sentia-se uma calma no ar. Navegávamos no mítico rio Mekong, num barquito com capacidade para umas 15 a 20 pessoas. Só havia mais uma Ocidental que ia a “terra” levantar dinheiro e o resto dos ocupantes eram pessoas locais que estavam a iniciar a sua jornada diária. Não percebia nada do que falavam mas era como se compreendesse tudo. Estávamos no Laos profundo mas aquela era uma cena que se repete em tantos transportes públicos todas as manhãs.

Estava a assistir ao maior espectáculo de todos num lugar privilegiado, o espectáculo da Vida. O Sol que reflectia na água, o rio que fluía tranquilo, os pássaros, as pessoas, o barco, eram todos personagens daquele momento mágico. Para muitos seria apenas uma viagem de 20 minutos num barco manhoso a ouvir pessoas a falar uma língua estranha, para mim… para mim é o que me faz viajar.

Daniel

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Been there Don Det

Saímos de Luang Prabang no dia 19 de Janeiro. Uma viagem de autocarro, tortuosa (apesar do cenário lindo), que durou cerca de 7 horas, levou-nos até Vang Vieng.

Vang Vieng é um daqueles locais onde se percebe rapidamente que o desenvolvimento turístico correu mal. Há bares e restaurantes de comida ocidental por todo o lado, miúdos com dinheiro e sem juízo também não faltam e população local quase não se vê. A beleza natural estonteante parece pouco importar, a maioria das pessoas que vão até lá, vão pelas festas.

Fugimos do centro da confusão e ficámos hospedados na outra margem do rio, numa zona calma e até bastante rural, nos Bungalows Paradise… Tirando a ocasional barata que gostava de visitar o WC aquilo até era bem porreiro!

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O Paradise das baratas

No dia seguinte decidimos ir fazer tubing no rio. Alugámos uma boia cada um, que não era mais nem menos que uma câmara-de-ar de pneu de camião, levaram-nos numa Sorngtaaou até uns 3 ou 4 km a montante do rio e largaram-nos lá para descermos o rio sentados na boia!

O rio tem muito pouca profundidade e a corrente é muito fraquinha, portanto esta é uma actividade para relaxar e apreciar a Natureza que é linda nesta zona. No entanto, quem apenas olhar para as estatísticas e verificar que só no ano de 2011 morreram pelo menos 27 turistas no rio, decerto achará que esta é uma actividade muito perigosa. E é, porque nas margens do rio existem muitos bares geridos por ocidentais, que oferecem e vendem bebidas e drogas. Ainda antes de entrarmos no rio já nos aliciavam para irmos a um bar beber um shot grátis… É claro que por muito calminho que seja o rio, estar em cima de uma boia bêbado e/ou drogado, é uma combinação muito perigosa que explica as estatísticas. Disseram-nos que depois de 2011 a situação em Vang Vieng mudou e que inclusivamente tinham fechado todos os bares nas margens do rio mas, a verdade, é que em Janeiro de 2015 a ideia que ficou é que a situação estava a descambar outra vez.

Acabou por ser uma tarde bem passada a “boiar no rio”! Durante o percurso não tivemos a companhia de muitos turistas e ainda menos de turistas aparvalhados; esses ficaram rapidamente para trás pois paravam em todos os bares!

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Tubing

No dia seguinte decidimos alugar bicicletas e pedalar 7 km numa estrada de terra, a levar com o pó das moto 4 e das carrinhas carregadas de turistas, para visitarmos a Blue Lagoon. Quando chegámos percebemos logo que aquilo não era para nós… Centenas de turistas, cordas para o pessoal se atirar para a água, ziplines, enfim, mais um circo.

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Blue Lagoon

Na viagem de regresso decidimos ir visitar uma gruta. Pagámos bilhete, não demos com a entrada da gruta e fomos embora, fartos daquilo!

Deste dia salvou-se uma visita que fizemos a uma quinta de agricultura biológica e a Lab Kai (prato tradicional do Laos) deliciosa que comemos ao jantar, num restaurante pequenino muito perto do “nosso” bungalow.

Na manhã seguinte saímos de Vang Vieng. O próximo destino era Vientiane, a capital do país. Esperámos bastante tempo no terminal de autocarros pois, como é habitual no Laos, o autocarro partiu atrasado. Tivemos a companhia durante algum tempo da simpática dona do tal restaurante que referi e onde fomos várias vezes. Ia até à Tailândia com a filha de cerca de 6 anos fazer compras; estavam todas contentes!

Lá seguimos viagem, em mais um autocarro cheio de turistas, em direcção a Vientiane. Chegámos a meio da tarde e fomos até uma guesthouse da qual tínhamos boas referências. Ficámos hospedados num dormitório, que partilhámos com um rapaz Japonês que passou os dias a ler BD Japonesa e um homem, com quarentas e muitos, que chegava sempre bêbado lá para as 10 da noite. Estavam mais algumas pessoas estranhas hospedadas ali e, em outros hotéis e restaurantes espalhados pela cidade, era comum encontrar pessoas assim, como que à deriva na vida, muitos viciados no álcool e num ciclo que dificilmente conseguiriam quebrar. Vientiane foi um dos locais mais estranhos por onde passámos…

Na manhã seguinte visitámos dois templos, o Wat Si Saket e o Haw Pha Kaewe, e regressámos à guesthouse. Almoçámos uma pizza deliciosa ali pertinho e decidimos ir visitar o COPE centre, que ficava a cerca de 2 km de onde estávamos. Apesar do calor, decidimos ir a pé.

Estávamos a caminhar há cerca de 15 minutos e senti algumas cólicas. A guesthouse já ficava longe por isso decidimos continuar na esperança que passasse… Não passou! A minha situação foi-se complicando muito rapidamente e já estava desesperado à procura de uma casa de banho que teimava em não aparecer. Já suava, já nem falava, quando encontrámos um café. Delineei o plano na minha cabeça imediatamente: “Catarina, pede um chá ou qualquer coisa que eu vou directo à casa de banho”. Não tinha casa de banho… Saí do café desesperado. Quando a esperança já quase desaparecera por completo eis que encontro o oásis naquele deserto: uma casa de banho, na esquina do café, guardada por dois homens que cobravam uns trocos por cada utilização. Eu voei para a casa de banho e a Catarina ficou com os “guardiões da casa de banho” que lhe ofereciam tudo o que tinham: comida, cerveja e tabaco! Tiraram fotos com ela e ela tirou fotos deles.

Aliviado, seguimos para o COPE centre, que é uma organização sem fins lucrativos que apoia vítimas de bombas no Laos. Apesar do Laos ter tido uma postura neutra na guerra do Vietname, o país foi bombardeado exaustivamente por tropas Americanas, pois os Vietnamitas do Norte utilizavam o território do Laos para levar mantimentos e tropas para o Sul do Vietname. Para se ter uma noção da escala, os EUA largaram mais bombas no Laos entre 1964 e 1973, do que todas as bombas utilizadas em toda a II Guerra Mundial, tornando o país no mais bombardeado per capita da história.

40 anos depois, no território do Laos ainda existem milhões de bombas por explodir que afectam cerca de 100 pessoas por ano. Uma das missões desta instituição é a criação de próteses que ajudam a melhorar a vida de muitas pessoas que foram vítimas não mortais de explosões. A exposição que vimos no Centro foi extremamente interessante e reveladora de factos que desconhecíamos por completo.

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COPE centre

Saímos de Vientiane no dia seguinte, numa viagem que começou às 18 horas e terminou por volta das 13 horas do dia seguinte. Uma Sorngtaaou , um sleeping bus, um autocarro normal e finalmente um barquito levaram-nos até Si Phan Don, o arquipélago das 4000 ilhas no extremo Sul do Laos e já próximo da fronteira com o Cambodja.

Tínhamos duas hipóteses, ou íamos para Don Det, a ilha da malta mais jovem, das festas e da parvoíce ou Don Khon, a ilha mais calminha. A escolha foi fácil.

Acabámos por ficar 5 noites em Don Khon e só não ficámos mais porque depois não sobraria muito tempo para visitar o Cambodja. Havia poucos turistas e pouco que fazer portanto passei boa parte dos dias a escrever posts para o blog, a ler, ou simplesmente a contemplar a paisagem que era linda.

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Don Khon

Num dia alugámos bicicletas e demos a volta à ilha visitando algumas cascatas espectaculares.

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Uma das cascatas que vimos

Depois de tantos dias na rota turística, Don Khon foi mesmo o que precisávamos: um local para descansarmos e também para termos contacto com um Laos que ainda não tínhamos visto, mais rural e menos adulterado pela indústria turística irresponsável.

Saímos de Si Phan Don no dia 30 de Janeiro, em direcção a Phnom Penh, capital do Cambodja, naquele que foi um dos dias mais cansativos da viagem mas que também teve algumas peripécias, sobre as quais falaremos noutro post.

Daniel

Na Rota Turística

De todos os países que visitámos, o Laos era o mais desconhecido; sabia apenas vagamente onde se localizava e pouco mais. Em Portugal praticamente não se fala do Laos e, em boa verdade, de quase nada do que se passa fora do mundo Ocidental. Este desconhecimento deu-me esperanças que o país estivesse fora da rota turística… Estava enganado.

Tínhamos entretanto comprado bilhetes de avião de Banguecoque para Yangon (capital de Myanmar) para o dia 11 de Fevereiro, o que nos deixava cerca de 4 semanas para visitarmos o Laos e o Cambodja. Como tínhamos pouco tempo, traçámos um itinerário que nos levaria aos principais pontos de interesse dos dois países e não nos aventurámos para zonas mais remotas, ao contrário do que fizemos por exemplo no Vietname.

A aventura no Laos começou no dia 12 de Janeiro. Ainda em Chiang Khong (Tailândia), pelas 8 da manhã apanhámos uma mini-van para a fronteira juntamente com mais alguns turistas. Depois das poucas formalidades para sair da Tailândia, apanhámos um autocarro que nos levou até à fronteira do Laos, do outro lado do rio Mekong e uns 3 ou 4 km distante da fronteira Tailandesa. Na fronteira do Laos estavam já dezenas de turistas a preencherem os formulários para obtenção do visto ou em filas mal organizadas à espera de serem atendidos. Juntámo-nos à “festa” e lá nos safámos com mais um carimbo e um visto no passaporte. O processo, apesar de um bocado caótico, até nem foi esquemático nem corrupto (como esperava) e durou cerca de uma hora.

Partilhámos uma Sorngtaaou com mais alguns turistas para irmos até ao cais onde se apanham os barcos lentos que descem o Mekong até Luang Prabang numa viagem que dura dois dias. Estava toda a gente muito nervosa porque já estava na hora dos barcos partirem e nós ainda estávamos na fronteira e sem bilhetes para o barco, mas nós, após vários meses na estrada, já não nos enervávamos com estas situações; o pior que podia acontecer era perdermos o barco e termos de dormir naquela terra à espera do barco do próximo dia… Além disso, quando saímos da fronteira ainda lá ficaram algumas dezenas de turistas e era mais ou menos óbvio que os barcos só partiriam quando todos chegassem.

Chegámos ao cais, comprámos os bilhetes e arranjámos dois lugares num dos dois barcos que sairiam nesse dia. Até os barcos partirem esperámos pelo menos uma hora!

Os barcos de madeira com bancos de automóveis encheram quase exclusivamente com turistas ocidentais, boa parte deles aparvalhados. Pouco depois da viagem começar já se tinha formado um grupo enorme de pessoas que foram para a parte de trás do barco embebedarem-se com as bebidas que tinham adquirido antes de embarcarem. À parte das más companhias, a viagem apesar de longa foi agradável e o cenário lindo.

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Interior do barco

Chegámos a Pak Beng, localidade sensivelmente a meio do caminho e onde iriamos dormir, já no lusco-fusco. Pak Beng é uma localidade que só existe porque a viagem entre a fronteira e Luang Prabang é demasiado grande para se efectuar num dia e os turistas precisam de algum lugar onde passar a noite. Basicamente Pak Beng tem apenas uma rua, cheia de restaurantes e guesthouses – tudo o que os turistas precisam para passar a noite.

No dia seguinte retomámos a viagem e, durante as primeiras horas, estava bastante frio o que tornou a viagem desconfortável. O cenário continuou lindo e muitos turistas continuaram com o seu comportamento reprovável…

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Vista do barco

Chegámos, enfim, a Luang Prabang ao final da tarde de quarta-feira, 14 de Janeiro. Sendo a principal atracção turística do Laos e uma das principais de todo o Sudeste Asiático decidimos ficar 5 noites.

Luang Prabang é uma cidade pequena, situada nas margens do Mekong e que tem vários edifícios de arquitectura colonial, herança do período da Indochina Francesa. Apesar de hoje em dia ser um local bastante turístico, Luang Prabang preserva um certo charme que a torna bastante atractiva e interessante.

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Luang Prabang

Dos locais que visitámos destaco o templo Wat Xien Thong, muito antigo e bonito, o Royal Palace e a Kuang Si Water Fall, uma cascata espectacular nas imediações de Luang Prabang.

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Wat Xien Thong

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Cascata Kuang Si

Fizemos outra aula de culinária, esta num restaurante finório e com bastantes mais alunos. Não sendo tão boa quanto a aula que fizemos em Chiang Mai, foi mais uma oportunidade para eu continuar a aprender a descascar batatas!

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A Catarina a aprender novas receitas

Numa das noites, depois de assistirmos ao pôr-do-sol no topo do monte Phu Si, participámos num jantar tipíco chamado Pun Pa com mais 12 turistas. Ao nosso lado ficou um casal de Alemães empertigados e, do outro lado, duas “cotas” com sessentas e tais, uma Australiana e outra Canadiana, muito simpáticas e completamente chanfradas. Está visto que passámos o jantar inteiro à conversa com elas. Foi uma noite muito interessante, pelas histórias partilhadas (a Australiana então tinha com cada aventura) e, claro, pela comida que era divinal.

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Comida tradicional do Laos

Muito interessante foi também um espectáculo de “Storytelling” a que assistimos. Um homem muito idoso tocava um instrumento tradicional (semelhante a uma gaita) e outro, jovem, contava histórias tradicionais do Laos. Uma combinação que funcionou muito bem e que, de uma forma leve e divertida, nos transmitiu um pouco da história e da cultura do Laos.

Decidimos ainda assistir à Cerimónia das Almas, uma tradição milenar em que os monges budistas saem do Mosteiro ao nascer do Sol para receber oferendas dos fiéis. Na teoria algo bonito de se assistir, na práctica um espectáculo decadente, não pelos “actores”, mas pelos espectadores. Ainda noite escura já se amontoavam centenas de pessoas à porta do Mosteiro, à espera que os monges saíssem. Quando os monges começaram a sair dispararam mais flashes de câmaras fotográficas do que numa passadeira vermelha de Hollywood. Em busca da fotografia perfeita muitas pessoas ultrapassaram claramente o razoável e tiraram fotos mesmo em cima da cara dos monges, até algumas selfies, enfim… Nós ficámos do outro lado da rua mas mesmo assim, quando decidimos ir embora ficou aquele sentimento de, à semelhança do que aconteceu depois de visitarmos o Mausoléu do Lenine em Moscovo, “o que é que viemos aqui fazer”?

Apesar de termos convivido com o lado negro da massificação do turismo, passámos bons momentos em Luang Prabang, num registo mais de férias do que de viagem, mas ainda assim valeu bem a pena.

Daniel

Welcome to the Jungle

O encontro com o nosso anfitrião estava marcado para as 14 horas de 28 de Dezembro, no mercado de Mae Wang. Uma viagem de Sorngtaaou que durou cerca de 1 hora levou-nos de Chiang Mai até ao mercado. Chegámos bem adiantados, decidimos ir explorar o pequeno mercado e acabámos por almoçar numa bancada de comida no meio do mercado.

Enquanto estávamos a almoçar fomos abordados por um homem com ar de mendigo com um miúdo ranhoso ao colo. Perguntou-nos de onde éramos e eu, que não sou de discriminar ninguém, respondi-lhe que éramos Portugueses. A conversa ficou por ali e eles foram-se embora e nós continuámos a comer a nossa refeição picante.

Eu pensei sinceramente que era mesmo algum pedinte, mas uns 5 minutos depois o homem voltou e apresentou-se: “I’m Mr. Wat”. O Mr. Wat era o nosso anfitrião… Começava de uma forma um pouco estranha esta experiência.

Acabámos de comer e fomos até à carrinha dele, uma pick-up Ford, onde estavam mais algumas pessoas: o cunhado do Wat, Mr. Lek, e outras pessoas da aldeia que tinham aproveitado a boleia para irem fazer compras ao mercado. A quinta para onde iríamos ainda ficava a uma hora de distância de Mae Wang e na aldeia, ou nas aldeias perto, não havia nenhum mercado.

A viagem até à quinta foi feita na traseira da pick-up, no meio das compras todas e não foi nada confortável, mas fez-se.

A quinta ficava no meio das montanhas, ainda a uns 10 minutos da aldeia mais próxima, mas correspondia àquilo que estávamos à espera. Não havia água quente, nem internet e apenas um pequeno painel fotovoltaico que alimentava umas poucas lâmpadas no edifício principal; nos quartos era à luz da vela ou da lanterna. Tínhamos uma cabanita só para nós, com casa de banho no rés-do-chão e o quarto no primeiro andar. O quarto era mesmo básico, com uma mesa e uma cadeira, uma cama “dura que nem cornos” e a rede mosquiteira.

O “nosso” quarto

O “nosso” quarto

A vista da quinta

A vista da quinta

O wwoofing basicamente consiste em trabalhar algumas horas por dia numa quinta de agricultura biológica em troca de alojamento e refeições. Na Tailândia, contrariamente à prática comum na Europa, é habitual cobrarem um pequeno valor por dia para contribuir para a comida e, neste caso, também para os transportes desde e para o mercado de Mae Wang.

Nos primeiros dias na quinta tivemos a companhia de outro wwoofer, um Alemão de 40 anos que estava a passar um mês na Tailândia à procura de respostas a dúvidas existenciais. Ele era bastante simpático (para alemão…) e ajudou-nos nos primeiros dias a perceber como é que as coisas funcionavam: o pequeno-almoço era às 08:00, depois trabalhávamos um bocado de manhã, almoçávamos por volta das 12:00 horas, mais um bocado de trabalho à tarde e o jantar era por volta das 18:00 horas.

A família era composta pelo Wat e a Poh, de 32 anos e os dois filhos, Wichai de 8 anos e Suwicha de 3 anos. O Wat falava um Inglês bastante limitado mas que chegava para nos entendermos e a Poh practicamente não falava Inglês. Os miúdos, tal como dois irmãos em qualquer lugar do mundo, adoravam-se mas andavam sempre a embirrar um com o outro!

Eles têm identidade Tailandesa mas na verdade são Karen. Os Karen são uma etnia minoritária, com uma linguagem própria, trajes distintivos e tradições que vão passando de geração em geração.

Os primeiros dias na quinta foram um bocado complicados. O Wat e a Poh são pessoas muito introvertidas e o alemão, apesar de simpático, tinha aquela frieza típica de alemão… E o pior foi a adaptação ao ritmo de trabalho do “little bit”, “slowly, slowly”, “easy, easy”. Era tudo devagar, devagarinho, um bocadinho hoje, outro bocadinho amanhã, completamente oposto ao ritmo de trabalho a que estamos habituados.

Mas com o passar dos dias, foram-se criando laços entre nós e a família, nós percebemos melhor como é que as coisas funcionavam e rapidamente nos adaptámos aquela realidade.

O alemão foi-se embora no nosso quinto dia na quinta. Ao sétimo dia chegou uma francesa de 21 anos, que foi embora no mesmo dia que nós, e nos últimos 3 ou 4 dias tivemos também a companhia de uma americana de 24 anos e um alemão de 18. Os últimos dias com esta “tropa fandanga” foram os melhores, porque entretanto tínhamos quebrado todas as barreiras emocionais com a família e já fazíamos parte dela e também porque aquela mistura de nacionalidades diferentes funcionou bem.

Entre o trabalho que ia sendo feito, realizámos uma série de outras actividades. Nas duas semanas que ali passámos o Wat levou-nos 3 vezes em caminhadas pela zona até algumas cascatas, jogámos futebol na rua com os miúdos, fomos a duas festas de Natal na aldeia e vimos um torneio de futebol no “campo” da aldeia. Foram tudo experiências espectaculares e enriquecedoras.

Uma cascata onde tomámos um banho refrescante

Uma cascata onde tomámos um banho refrescante

A jogar futebol com os miúdos

A jogar futebol com os miúdos

Dia de futebol na aldeia

Dia de futebol na aldeia

Outra cascata

Outra cascata

O trabalho na quinta era durinho mas nunca durava muito tempo. Cavámos a terra e plantámos amendoins (que a Catarina descascou durante 2 dias até fazer bolhas nos dedos!), ananases e maracujás. Apanhámos couves e tratámos dos feijões que estavam a crescer. Nalguns dias em vez de irmos para a horta íamos trabalhar na construção de novas cabanas, sempre com muita calma… Eu normalmente andava sempre a acompanhar o Wat, fosse na horta, a ir cortar bambu para as novas construções, ou na construção propriamente dita. Fomos ficando mais próximos com o passar dos dias; à noite mostrávamos-lhe fotos da nossa mini-horta e ele dava-nos quebra-cabeças inventados por ele para resolvermos. Todas as noites depois de jantar lá vinha o Wat com o seu dicionário de Inglês-Tailandês aprender novas palavras: escolhia palavras que não conhecia e pedia-nos para lhe explicarmos o significado.

Horta de Pak Choi

Horta de Pak Choi

Feijões a crescer

Feijões a crescer

A cavar

A cavar

Na véspera de irmos embora, depois do jantar, o Wat deu-me um abraço e disse-me: “Daniel, ainda não foste embora e já tenho saudades tuas”. E eu sentia o mesmo, nos primeiros dias cheguei a equacionar ficarmos apenas uma semana na quinta, mas quando fomos embora, ao final de duas semanas, queria ficar mais tempo, muito mais tempo. Envolvemo-nos naquele projecto, que ajudámos a construir com o nosso trabalho e suor, e custou ir embora.

Foto de família, antes de irmos embora

Foto de família, antes de irmos embora

Saímos da quinta no Sábado, 10 de Janeiro. O Wat, a Poh e o Suwicha levaram-nos na carrinha até Mae Wang. Um último abraço antes de entrarmos na Sorngtaaou que nos levaria de volta a Chiang Mai e a uma vida que apenas passadas duas semanas já nos era estranha: trânsito, prédios, confusão, uma cena que se repete em qualquer cidade do mundo, mas não na quinta donde vínhamos.

Foi uma das melhores experiências da nossa viagem e da nossa vida. Viver durante duas semanas apenas com o básico, em contacto permanente com a terra.

E também foi bom parar no mesmo sítio durante tanto tempo, sair da rotina da “vida na estrada”, o fazer e desfazer a mala, as viagens longas, o conhecer novas pessoas a toda a hora, ter de sair sempre para as refeições, enfim, uma série de coisas que parecem insignificantes mas que ao fim de algumas semanas começam a cansar e a desgastar; não há fins-de-semanas nem feriados na estrada, todos os dias são dias de viagem.

De regresso a Chiang Mai, ficámos novamente hospedados no “The Living Place 2” e fomos jantar ao “Morning Glory” onde a Catarina foi recrutada para ajudar na cozinha durante uns 15 minutos!

Voltei ao melhor barbeiro da Tailândia e arredores onde fui ainda mais bem atendido do que da primeira vez e comprámos bilhetes de autocarro para a jornada seguinte, que nos levaria até Chiang Khong, localidade nas margens do Mekong que veríamos pela primeira vez e junto à fronteira com o Laos, o nosso próximo destino.

Daniel

A Arte de Viver

Imaginava Banguecoque como uma cidade de excessos, perigosa e pouco interessante. Banguecoque é de facto a Meca dos viajantes mochileiros que andam em busca de festas e excessos, existe efetivamente uma indústria de turismo sexual e de espectáculos degradantes e sim, a cidade pode ser perigosa… Mas a nossa experiência em Banguecoque não teve nada disso. Demos uma oportunidade a Banguecoque e Banguecoque não decepcionou.

Ficámos hospedados num bairro residencial, longe do centro turístico e da confusão e experienciámos a vida bairrista. Almoçámos pelo mercado que era ali bem pertinho, tomámos o pequeno-almoço numa espécie de buffet onde nos serviam logo pela manhã arroz com panados de porco, ou uma sopa muito picante, ou outra coisa qualquer, pelos nossos standards, mais própria de almoço do que de pequeno-almoço. E claro, visitámos várias das atracções turísticas de Banguecoque.

Chegámos à capital na quarta-feira, 17 de Dezembro. Fomos de transportes públicos do aeroporto até ao hostel o que nos permitiu desde logo ficar com algumas impressões da cidade. Banguecoque é uma mega cidade, com muitos arranha-céus espalhados um pouco por todo o lado, estradas com um trânsito caótico e transportes públicos que, não tendo o nível de Kuala Lumpur ou Singapura, funcionam bem e são baratos.

Chegámos ao hostel ao início da tarde e dedicámos o resto do dia a descansar e planear os próximos dias.

No dia seguinte, depois de tomarmos o pequeno-almoço no local habitual, apanhámos um autocarro para a zona do Wat Arun, que visitámos depois de vaguearmos um pouco pela zona. O Wat Arun é um templo muito interessante localizado junto ao rio, ricamente decorado com pedaços de porcelana que foram recortados em diversas formas.

Do Wat Arun, seguimos num passeio junto ao rio até chegarmos à Igreja Católica de Santa Cruz, ali construída como recompensa aos Portugueses por terem ajudado o Reino de Sião (actual Tailândia) numa batalha contra os Birmaneses. Tal como em muitos outros países da Ásia, os Portugueses foram os primeiros Europeus a chegar a Sião e a construir relações comerciais que duraram vários séculos mas que, nos dias que correm, parecem estar moribundas…

Tinham-nos informado que por aquela zona podíamos encontrar doçaria Portuguesa, porque tinha existido um bairro Português ali que tinha deixado um legado. Percorremos aquelas ruas a salivar por pastéis de nata, travesseiros de sintra, fofos de belas, queijadas, hum… Não descobrimos nada!

No dia seguinte saímos um pouco mais tarde e, seguindo as indicações da dona do hostel, fomos à procura de uma bancada de comida de rua que faz Pad Thai, um dos pratos Tailandeses mais famosos. Descobrimos o sítio e fomos bem atendidos, como sempre na Tailândia.

Depois fomos visitar o Wat Pho, um dos maiores e mais antigos templos de Banguecoque e onde pudemos ver uma estátua enorme de um Buda Reclinado. Tem 46 metros de comprimento e 15 de altura e, apesar de ter muitos turistas, é de facto impressionante e lindo. Não só a estátua como todo o complexo valem muito a pena a visita.

Wat Pho, Buda Reclinado

Wat Pho, Buda Reclinado

De seguida queríamos ir visitar o Grande Palácio mas, como já estava fechado, decidimos ir até um parque ali pertinho e ficámos a observar as pessoas a exercitarem-se dando voltas ao parque em passo acelerado. Ao final da tarde fomos até à Montanha Dourada, onde assistimos ao pôr-do-sol. A vista de 360º no topo, junto à enorme Stupa dourada era fantástica, uma mistura entre antigo e moderno, templos e arranha-céus, numa imensidão de cidade.

Vista parcial do topo da Montanha Dourada

Vista parcial do topo da Montanha Dourada

No último dia em Banguecoque visitámos o Grande Palácio. É um complexo deveras impressionante, com muitos templos de entre os quais se destaca o do Buda de Esmeralda. Apesar de ser a principal atracção turística de Banguecoque (portanto com milhares de turistas todos os dias), e do palácio propriamente dito apenas se poder observar de fora, é um complexo extremamente rico e interessante.

Ainda antes de sairmos do complexo visitámos o Museu dos Têxteis, que tem uma excelente colecção de vestidos da rainha, assim como explicações muito interessantes sobre os tecidos Tailandeses e como ganharam fama mundial.

No Domingo, 21 de Dezembro voltámos à estrada e apanhámos um autocarro para Sukhothai. A viagem de cerca de 7 horas foi bastante confortável. Chegados à estação de autocarros de Sukhothai, fizemos negócio com um condutor de uma Sorngtaaou para nos levar até á Guesthouse. A Sorngtaaou é uma carrinha de caixa aberta, com uns bancos corridos e um tejadilho e que leva passageiros. Foi a primeira de muitas pequenas viagens que fizemos neste tipo de carrinhas e que, apesar de não serem muito confortáveis, são mais seguras do que parecem!

Sorngtaaou

Sorngtaaou

No dia seguinte fomos visitar o Parque Histórico de Sukhothai, uma área enorme de templos muito antigos e bem preservados. Alugámos bicicletas e andámos por ali a manhã toda a visitar diversos templos.

Sukhothai

Sukhothai

Sukhothai

Sukhothai

Sukhothai

Sukhothai

Conhecemos uma Portuguesa que ficou entusiasmadíssima por encontrar Portugueses ali. Tinha emigrado para a Suíça há muitos anos mas dizia convictamente: “Sou 100% Portuguesa!”. Ela estava a viajar com o marido e tinham um guia privado; apesar de termos estilos de viajar completamente diferentes, estávamos todos a fazer o mesmo: passear de bicicleta pelas ruinas de Sukhothai. O orçamento deles para as 3 ou 4 semanas de férias dava para nós viajarmos durante uns 3 ou 4 meses! Nisto das viagens não há certo nem errado, há apenas muitas formas diferentes de chegar ao mesmo destino e cada um escolhe a que quiser.

Na manhã seguinte voltámos à estrada. Apanhámos um tuk-tuk para a estação de autocarros onde, enquanto esperávamos que chegasse a hora de partida, ouvíamos músicas de Natal. Era dia 23 de Dezembro mas, apesar da música, não parecia nada que estávamos na época de Natal: estava calor, não havia decorações nem o tal espirito natalício…

Seis horas no autocarro e chegávamos a Chiang Mai, local onde ficámos 5 dias, hospedados num hostel com uma atmosfera muito boa, com boas instalações e com um dono um bocadinho chanfrado (e não somos todos um bocadinho?!) mas muito afável e que fazia o melhor muesli do mundo!

Na véspera de Natal fui cortar o cabelo ao melhor barbeiro de todos os que fui nesta viagem e fomos fazer umas comprinhas. Nada de souvenirs, que ainda faltava muito até regressarmos a Portugal, portanto decidimos comprar uns livros. Fomos a duas livrarias de livros usados e eram as duas complemente caóticas e desorganizadas mas os donos sabiam exactamente onde é que tinham cada livro! Uma delas era de um Italiano que tinha estado em Portugal nos meses seguintes à revolução de 74 a apoiar um movimento de esquerda!

O melhor barbeiro da Tailândia e arredores

O melhor barbeiro da Tailândia e arredores

Caos

Caos

O jantar de Natal foi num mega buffet com mais 8 ou 10 pessoas que estavam no mesmo hostel que nós. Não teve nada de jantar de Natal, nem bacalhau, nem couves, nem o melhor vinho da garrafeira, nem vinho do Porto, nem essas coisas todas, mas foi uma noite bem passada, com camarões à fartazana e cervejas fresquinhas!

Nos restantes dias que passámos em Chiang Mai acabámos por passar grande parte do tempo no hostel, a ler, ver filmes ou simplesmente a conversar com outras pessoas. Tínhamos pensado em ir para um mosteiro fazer um curso de meditação de 4 dias, mas já não havia vagas até ao final de Janeiro… Comentei essa nossa intenção com o dono do hostel e tivemos uma conversa muito interessante com ele sobre meditação e a vida em geral, sobre como andamos sempre stressados, como nos alheamos do mundo que nos rodeia e nos focamos apenas no eu, tudo gira à volta do eu, do meu, da posse. Ele emprestou-me um livro, com o sugestivo título “A Arte de Viver”; será viver uma arte? Claro que é! O livro era extremamente interessante e falava essencialmente sobre meditação, mas também sobre questões mais existenciais, um pouco na linha da conversa que tínhamos tido com o dono do hostel.

Nas imediações do hostel havia uma zona em que todas as noites montavam várias bancadas de comida e onde fomos todas as noites “visitar” o homem dos rotees (uma espécie de panquecas).

Claro que também fomos visitar vários templos e passeámos pela cidade que tem uma atmosfera bastante agradável: é turística mas ao mesmo tempo preserva uma certa identidade.

Wat Chedi Luang

Wat Chedi Luang

Mas o grande destaque de Chiang Mai foi o restaurante vegetariano “Morning Glory”. A história começa logo no dia em que chegámos a Chiang Mai e, enquanto esperávamos pelo check-in na área comum do hostel, reparei numa rapariga que me pareceu familiar. Comentei com a Catarina e de repente fez-se luz: tínhamos estado com eles (ela e o namorado) na Mongólia, há vários meses atrás, num acampamento nómada no meio do nada, a observar o céu estrelado. Foi um reencontro completamente acidental e bastante engraçado e foram eles que nos recomendaram o restaurante Morning Glory. Logo nessa noite fomos lá jantar e ficámos realmente convencidos e satisfeitos com a qualidade da comida. Voltámos lá para jantar pelo menos mais uma vez mas o ponto alto foi a aula de culinária que fizemos no restaurante. Acho que posso dizer sem mentir que foi a primeira vez que cozinhei! E por incrível que pareça até correu bem!

O restaurante, que é bem pequeno, só abre à noite. De manhã a dona e chef dá aulas de culinária, no máximo a 4 pessoas. Além das receitas serem deliciosas, ela tem muito jeito para ensinar e foi uma grande experiência. Primeiro fomos ao mercado local aprender sobre os ingredientes típicos da cozinha Tailandesa, depois regressámos ao restaurante onde começámos por preparar tudo e depois então foi só cozinhar.

O “nosso” sticky rice com manga, delicioso!

O “nosso” sticky rice com manga, delicioso!

No domingo, 28 de Dezembro, saímos de Chiang Mai para uma nova experiência, wwoofing numa quinta de agricultura biológica, sobre a qual falaremos noutro post.

Daniel

Onde Judas perdeu as botas

Chegámos a Mai Chau já no lusco-fusco, depois da maratona de transportes desde a ilha de Cat Ba. Saímos do centro e caminhámos durante uma meia hora, já quase sem luz, até chegarmos a uma aldeia onde vivem pessoas da etnia minoritária White Thai. Ficámos hospedados na casa da Srª Chung, que era muito simpática e tinha jeito para o negócio.

Devido à relativa proximidade com Hanói, Mai Chau recebe turistas há já vários anos, que ali vão para conhecer a cultura da etnia White Thai e ficam a dormir em casa dessas pessoas. A Srª Chung recebe turistas há 15 anos e, além da casa tradicional onde ficámos hospedados, está a construir um hotel moderno porque percebeu que há pessoas que gostam dum nível de conforto que as casas tradicionais não proporcionam.

Devido à presença assídua de turistas, esta homestay não foi muito diferente de ficar numa guesthouse. Estávamos numa casa tradicional, sobre estacas, mas tínhamos um quarto só para nós que apesar de extremamente básico, era espaçoso e tinha uma cama confortável. O jantar e o pequeno-almoço estavam incluídos e foram deliciosos.

No dia seguinte de manhã, alugámos umas bicicletas e passeámos a manhã toda pelos campos de arroz e por pequenas aldeias.

De bicicleta por Mai Chau.

De bicicleta por Mai Chau

À noite, chegou um grupo grande de turistas e a Srª Chung decidiu organizar um pequeno espectáculo com música e danças tradicionais, foi muito engraçado.

No dia seguinte de manhã continuámos a nossa odisseia pelo Vietname remoto e fomos até Son La. Primeiro, ainda em Mai Chau, apanhámos um autocarro que nos deixou no cruzamento da estrada principal, a uns 5 km de Mai Chau. Depois esperámos uns 5 minutos e passou um autocarro que mandámos parar e no qual entrámos. Já lá dentro começou a discussão por causa do preço a pagar. Estávamos a ser roubadíssimos no preço e pedi as malas de volta para sairmos do autocarro até que lá nos entendemos num valor, mesmo assim muito superior ao que os Vietnamitas pagavam. O Vietname está cheio destes esquemas manhosos em que fazem os turistas pagar mais por quase tudo, muitas vezes mais do dobro do preço correcto.

Os autocarros no Vietname servem para transportar tudo: pessoas, malas de viagem, caixas de vegetais, galinhas e tudo o que possam imaginar. Nesta viagem de Mai Chau para Son La meteram uma mota dentro do autocarro!

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Um dos autocarros que apanhámos, com as nossas mochilas no tejadilho

A viagem até Son La demorou umas 5 horas e não foi muito agradável, pela altercação inicial por causa do preço dos bilhetes, pelo desconforto dos bancos e pela bexiga que apertava imenso na última hora de viagem. Quando chegámos, a Catarina foi a correr à casa de banho e eu tive de ficar com as malas; não sei como é que me aguentei!

Na estação de autocarros vimos um casal de turistas, que estavam só a trocar de autocarro e estes foram os únicos turistas que vimos em Son La.

Fomos a pé da estação até ao centro da cidade, uma caminhada de 5 km, e pelo caminho as pessoas iam acenando e dizendo “hello”. Estavam estupefactos e animadíssimos por verem dois turistas!

O mais estranho é que Son La ainda é uma terra grande e até razoavelmente desenvolvida. Ficámos hospedados numa guesthouse fraquinha, onde ninguém falava Inglês, tal como no resto da cidade. As pessoas eram todas muito simpáticas mas a barreira linguística foi impossível de ultrapassar. Conseguíamos o básico (estadia, comida, transportes) mas ficava por aí.

Depois de instalados andámos pela cidade até chegarmos a um pequeno mercado onde ficámos durante algum tempo a beber uma cerveja e comer umas pevides, enquanto observávamos a vida quotidiana das pessoas. Depois fomos jantar ali pela zona e entre pés de galinha, moelas e asinhas grelhadas, fomos pela última opção…

Regressámos à guesthouse e pelo caminho lá íamos continuando a responder aos “hellos” com um sorriso na cara. Houve uma pessoa que ainda meteu alguma conversa connosco mas ficou-se pelo “What’s your name?”, “Where are you from?” e “Goodbye”.

De manhã, fizemos o caminho de volta à estação para seguirmos viagem até Dien Bien Phu, quase na fronteira com o Laos. Chegámos lá e o autocarro da manhã já tinha partido; tivemos de esperar 4 horas pelo próximo…

Como comprámos os bilhetes na estação, desta vez não fomos enganados, mas a viagem foi mais do mesmo: desconforto, malta a vomitar a toda a hora (assim que entramos no autocarro dão logo saquinhos de plástico…), sobrelotação (no corredor do autocarro põem uns bancos de plástico a fazer de lugares extra, onde cabem 4, eles metem 6). A Catarina toma sempre um Vomidrine, para aguentar as refeições no estômago e adormece rapidamente, porque os comprimidos do enjoo são tiro e queda: 30 minutos depois já está ferrada! Eu, que devido a muitos anos de rally-papers, aguento-me bem, vou acordado a assistir àquele espectáculo.

A vista da janela era linda, mas com tanta curva e pessoas dentro do autocarro era difícil de apreciar. E para piorar, pouco depois de partirmos estávamos numa zona com nevoeiro, portanto não se via nada.

Chegámos a Dien Bien Phu e aquilo era mais uma terra perdida nas montanhas do Norte do Vietname. Encontrámos rapidamente uma guesthouse e jantámos ali pela zona. Como chegámos já quase de noite, decidimos ficar mais um dia para podermos explorar a cidade.

Dien Bien Phu foi onde, a 7 de Maio de 1954, os Franceses foram derrotados pelos Vietnamitas numa batalha que marcou o início do fim dos dias de Indochina para os Franceses.

Visitámos a colina onde se deu a batalha decisiva, onde podíamos andar pelas trincheiras e compreender melhor o que ali se passou. Depois disso fomos ver o cemitério, logo ali ao lado, onde estão sepultados milhares de combatentes Vietnamitas.

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Trincheiras em Dien Bien Phu

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Cemitério de combatentes Vietnamitas

No dia seguinte levantámo-nos bem cedinho e apanhámos um autocarro às 05:00 da manhã para Sin Ho. Quando chegámos à estação e à pergunta “para onde vais?” respondi “Sin Ho”, o gajo que me fez a pergunta riu-se, como quem diz “este gajo é parvo”!

Mais 6 horas num autocarro e chegámos a Sin Ho e descobrimos o local onde “Judas perdeu as botas”, foi ali, em Sin Ho.

Aquele lugar só tem um hotel, e há um autocarro que chega a Sin Ho e outro que sai de Sin Ho, um por dia.

Fomos até ao mercado e as pessoas olhavam-nos com estranheza. Claro que ninguém falava Inglês e tal como em Son La arranjámos estadia, comida e foi isso.

Passeámos pela aldeia, vimos miúdos a jogar futebol e entretanto chegou um nevoeiro cerrado que não se via nada.

Voltámos para o hotel e esperámos que o dia passasse para podermos ir embora dali…

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Sin Ho, onde Judas perdeu as botas

Mais um dia, mais uma viagem. Saímos de Sin Ho de manhã em direcção a SaPa, onde voltaríamos, finalmente, à rota turística.

SaPa é famosa pelas vistas majestosas e pelas estadias com famílias locais. Vistas, só do nevoeiro, portanto restava-nos a homestay. No hotel onde ficámos organizavam, mas era com grupos grandes e não me agradou. Fomos a uma agência de turismo responsável e, além de não me agradar muito o programa, era extremamente caro. Quando saímos dessa agência, fomos para a rua pensar no assunto e entretanto fomos abordados por uma senhora, Mama Lili de seu nome, com quem engracei desde o primeiro momento.

Ela estava atentar vender-nos uma homestay com ela. Íamos num trekking até casa dela, dormíamos lá e no dia seguinte outro trekking pelas aldeias da zona até regressarmos a SaPa. A Catarina não estava nada convencida e eu estava mas ao mesmo tempo não sabia bem o que fazer. Com a nossa indecisão o preço baixou de 60 dólares para 55 e consegui convencer a Catarina a irmos com a Mama Lili. Marcámos encontro com ela para o dia seguinte, no mesmo local, às 09:00 horas da manhã. Ela que já estava escaldada de várias pessoas que não cumpriram os acordos, dizia-nos “tomorrow, for sure” e eu respondia “yes, tomorrow, for sure”.

E “tomorrow” lá estava ela, ainda antes da hora combinada, toda contente por termos aparecido. Começavam aqui dois dias memoráveis e uma das melhores experiências de toda a viagem.

O trekking até casa dela não foi fácil, pois tinha chovido e o caminho estava todo lamacento. A Mama Lili é uma senhora já com uns 60 anos ou mais, mas nas partes mais difíceis ia sempre a segurar o braço da Catarina para ela não escorregar. As vistas eram inexistentes devido ao nevoeiro que continuava presente, mas a subida, apesar de difícil, foi agradável.

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A caminho de casa da Mama Lili

Chegámos finalmente a casa dela, que é extremamente modesta, conhecemos o resto da família (filho, nora e 5 netos) e passámos ali o resto do dia e a noite, a ver e participar na vida daquela família da etnia Black Hmong.

Alpendre da casa

Alpendre da casa

Cozinha

Cozinha

Sala de estar

Sala de estar

A Mama Lili ficou viúva há muito tempo e teve de criar os filhos sozinha. Quando o turismo começou a surgir em SaPa ela começou por ir vender artesanato e, há 7 anos, começou a fazer de guia de trekking e a receber pessoas em casa. Aprendeu a falar Inglês ouvindo os estrangeiros e, apesar de limitações óbvias, a comunicação fazia-se razoavelmente bem. Na etnia Black Hmong, as mulheres assumem um papel secundário mas naquela família o pilar era a Mama Lili.

Na manhã seguinte, apesar de estar a chover, deixámos a casa para trás e fomos visitar algumas aldeias de várias etnias diferentes e a Mama Lili ia-nos explicando as diferenças nos trajes tradicionais de cada etnia. Pelo caminho parámos numa escola onde estudava uma neta dela e a miúda acabou por vir connosco, depois de se fartar de chorar e da avó ter ido falar com a professora. Era uma escola com internato onde os miúdos passam a semana inteira sem ir a casa. Como já eram umas 11:00 horas de sexta-feira, deixaram-na sair mais cedo e ela ficou toda contente.

No final do trekking regressámos de mota a SaPa onde almoçámos com a Mama Lili no mercado. Tirámos uma foto juntos e despedimo-nos, apesar de nos apetecer continuar com ela. Ela gostou tanto de nós que nos ofereceu pulseiras e às tantas tivemos de recusar mais ofertas porque ela queria dar-nos muitas coisas. Ela pediu-nos se podia ficar com uma cópia da foto e combinámos encontrarmo-nos às 17:00 horas.

Voltámos ao hotel, tratámos de mudar de roupa e tomar banho e às 17:00 lá fomos para a porta da Igreja onde tínhamos combinado o encontro. Não se via nada por causa do nevoeiro mas esperámos quase 40 minutos por ela até que desistimos… Tinha ficado com o número dela, por isso fomos comprar um cartão SIM local, que não foi nada fácil de comprar, e liguei-lhe. Pelo telefone foi muito mais difícil de entender o seu Inglês mas percebi que tinha ido para casa porque estava a chover e muito frio, o que era verdade.

No dia seguinte de manhã, fomos imprimir a foto e andámos à procura dela, mas não a encontrámos. Tínhamos de ir embora de SaPa por isso liguei-lhe novamente e nem 5 minutos depois estávamos novamente juntos. Explicou-nos que também andava à nossa procura, até tinha ido ao nosso hotel, mas não nos conseguia encontrar.

Demos-lhe a foto e despedimo-nos mais uma vez. Apetecia-nos a todos ficar mais tempo juntos, mas era altura de seguir viagem.

Caminhada de regresso a SaPa

Caminhada de regresso a SaPa

A foto que imprimimos e oferecemos à Mama Lili

A foto que imprimimos e oferecemos à Mama Lili

Na estrada novamente, cerca de 40 minutos depois estávamos em Lao Cai onde seguimos noutra viagem de autocarro, de 3 horas, para Bac Ha, o nosso destino seguinte.

A grande atracção de Bac Ha é o mercado de Domingo. É um mercado grande e muito interessante onde se vende tudo: roupas e trajes tradicionais, tecidos, tapetes, carne, peixes, legumes, animais vivos desde búfalos a cães, tudo e mais alguma coisa.

Talho

Talho

Tecidos tradicionais

Tecidos tradicionais

No dia seguinte fizemos um trekking só os dois, com um guia local. Visitámos várias aldeias, uma escola e, como não havia nevoeiro, tivemos vistas deslumbrantes. O ponto alto foi quando parámos na casa de um homem que nos ofereceu várias bebidas, ainda fez umas danças para nós e tocou um instrumento musical esquisito, típico da região.

Trekking perto de Bac Ha

Trekking perto de Bac Ha

Aula de educação física

Aula de educação física

Voltámos para Bac Ha e sentámo-nos num café à espera que chegasse a hora do nosso autocarro nocturno para Hanói. Pouco depois chegou um casal de “cotas” que vive na Nova Zelândia e que tínhamos conhecido durante o trekking umas horas mais cedo. Acabámos por ficar umas 4 horas a conversar e o tempo passou num instante.

Fomos para a estação de autocarros onde nos esperava um autocarro “sleeper” que nos levaria numa viagem de 11 horas até Hanói.

Na capital passámos um dia, em que basicamente descansámos e começamos a estudar itinerários para a Tailândia.

Na quarta-feira, 17 de Dezembro, fomos bem cedinho para o aeroporto onde apanhámos o avião para Banguecoque, local onde começaria um novo capítulo da nossa viagem.

Daniel

A baía de Halong

A viagem de Hánoi para Cat Ba começou com uma curta viagem de táxi até à estação de autocarros. Aí, comprámos um bilhete que incluía a viagem de autocarro até Haiphong, depois outra viagem de autocarro até ao porto de Haiphong, a viagem de barco até à ilha de Cat Ba e mais uma viagem de autocarro desde o porto da ilha até ao centro. Ao fim de umas 4 horas e meia estávamos finalmente longe da confusão e bem pertinho de Halong bay.

No dia em que chegámos ficámos pelo hostel a descansar mas mesmo assim fomos recompensados com um pôr-do-sol magnífico.

Pôr-do-sol em Cat Ba

Pôr-do-sol em Cat Ba

No segundo dia decidimos ir ver que tal era a praia e acabámos por ficar lá o dia todo. Alugámos duas espreguiçadeiras e um chapéu-de-sol e passámos um dia espectacular, com direito a gin tónico para subir o nível!

Na praia

Na praia

Quando regressámos ao hostel, ao final da tarde, decidimos parar num restaurante e aproveitar a happy hour. Bebemos 3 cervejinhas pelo preço de 2 e comemos umas batatas fritas que sabiam a peixe!

Assistimos a mais um pôr-do-sol lindo, jantámos e demos este “dia difícil” por terminado.

Happy hour

Happy hour

No dia seguinte repetimos a receita, mas o tempo estava a mudar e portanto “só” estivemos na praia até meio da tarde.

Entretanto decidimos visitar Halong Bay e comprámos uma viagem de 2 dias, em que dormiríamos no barco e com as refeições todas incluídas.

Esta viagem começou na manhã seguinte e tivemos a companhia de 3 dinamarquesas: uma rapariga de cerca de 30 anos que andava a viajar há alguns meses com a filha de menos de 1 ano, inicialmente com o marido, depois algumas semanas sozinhas e naquele momento com a mãe dela, que iria estar com elas durante 3 semanas. Apesar do estilo e atitude hippies, elas eram muito simpáticas e educadas e foram uma óptima companhia.

O tempo mudou completamente e quando partimos já chovia. As minhas expectativas em relação a Halong Bay tinham vindo a baixar drasticamente com os relatos de que havia turistas a mais e, a chuva que poderia ter estragado a viagem, foi a melhor coisa que podia ter acontecido porque não havia quase nenhum barco turístico pelas águas de Halong Bay.

O início da viagem de barco foi bastante atribulado, com águas um pouco revoltas que rapidamente me puseram a pensar no que é que estava ali a fazer… Eu, que odeio barcos, tinha-me enfiado num barquito e ainda por cima tinha escolhido a viagem de 2 dias em vez de 1… Felizmente rapidamente chegámos a águas calmas e acabei por me sentir bastante bem durante todo o tempo em que passámos no barco.

A experiência em Halong Bay foi espectacular e verdadeiramente memorável. Visitámos uma gruta, uma fábrica de pérolas e uma quinta de aquacultura onde vimos um peixe gigante que o dono não vende por dinheiro nenhum. Navegámos por aquelas águas mágicas, andámos de caiaque e ainda houve a minha tentativa falhada de fazer snorkeling.

Navegando por Halong Bay

Navegando por Halong Bay

No caiaque

No caiaque

O "nosso" barco

O “nosso” barco

Sozinho na água

Sozinho na água

Regressámos a Cat Ba ao final do segundo dia de viagem e à noite conseguimos arranjar um streaming porreiro para vermos o snooker no computador!

A ver o snooker

A ver o snooker

O dia seguinte foi dedicado a lavar a roupa, cortar o cabelo e a definir um itinerário para o resto do tempo que tínhamos no Vietname. Decidimos ficar pelo Norte, porque tínhamos de voltar a Hanói para apanharmos o vôo para Banguecoque.

Na quinta-feira, 4 de Dezembro, fizemos o percurso de múltiplos transportes até Hanói, fomos aldrabados por um taxista que nos levou para outra estação de autocarros e, nessa estação, comprámos bilhetes de autocarro para Mai Chau, a nossa próxima paragem, dali a mais de 4 horas.

Daniel

Só para Vietnamitas

Chegámos a Hanói ao final da tarde de terça-feira, 25 de Novembro de 2014. As primeiras impressões eram de uma cidade caótica. Hanói tem cerca de 6,5 milhões de habitantes e 3,5 milhões de motas… há motas por todo o lado. Atravessar uma rua requer uma certa dose de coragem e engenho mas como em Kathmandu não era assim tão diferente, adaptámo-nos rapidamente. O fluxo das motas funciona como um cardume de peixes: aquilo parece caótico mas funciona!

Ruas de Hanói

Ruas de Hanói

Estávamos em Hanói porque era um dos poucos locais na Ásia com uma embaixada de Moçambique e nós precisávamos de obter os vistos. Antes de irmos ali parar já tinha ligado para a embaixada de Moçambique em Portugal onde me confirmaram que poderíamos obter os vistos pretendidos ali, ou em qualquer outra embaixada de Moçambique. Na mesma altura tentei contactar a embaixada de Moçambique em Hanói mas no número de telefone oficial atendeu alguém que me disse que tinha bons conhecimentos e que conseguia arranjar os vistos…

Dia 26 de manhã, fomos então tratar dos vistos. Chegámos à morada da embaixada mas não havia embaixada nenhuma, era um escritório qualquer com quadros de Moçambique nas paredes… Informaram-nos que a embaixada já não era ali e deram-nos a nova morada. Andámos, andámos e continuámos a andar, debaixo de um Sol abrasador, até que chegámos finalmente à morada que nos tinham indicado. Era um condomínio enorme, com várias empresas e embaixadas. Da embaixada de Moçambique nem sinal… Depois de perguntarmos a várias pessoas e de batermos a várias portas erradas demos finalmente com a embaixada, que não tinha qualquer identificação no exterior.

Tocámos à campainha e fomos recebidos com um certo ar de espanto por uma administrativa. Perguntou-nos de onde éramos e perante a nossa resposta logo nos disse que ali só emitiam vistos para Vietnamitas ou estrangeiros com visto de residência no Vietname… Disse-lhe que me tinham informado do contrário e ela ligou ao Cônsul que basicamente lhe disse para nos despachar. Voltei a insistir que tinha de ser possível e ela aconselhou-nos a voltar à tarde, “lá para as 3 da tarde”, que o Cônsul estaria lá e talvez nos recebesse.

Fomos para um café esperar que o tempo passasse e às 3 da tarde lá voltámos à embaixada e fomos recebidos pelo Cônsul, que até foi simpático mas não nos resolveu o problema. Além de não conseguirmos obter os vistos ali, ele ainda nos informou que, naquele momento, também não era possível obter vistos na fronteira, porque somos Portugueses…

Havia apenas uma pequena hipótese de obtermos um visto de 30 dias, mas tínhamos de enviar cartas não sei para onde e tínhamos de esperar não sei quanto tempo em Hanói, era caro e nós queríamos era um visto de 90 dias, para fazermos voluntariado durante dois meses. Eram complicações a mais para resolver ali. Ainda dormi sobre o assunto mas na manhã seguinte era claro que tínhamos de desistir de ir a Moçambique, por muito que isso me custasse.

Depois de sairmos da embaixada, a caminho do hotel, ainda visitámos o Templo da Literatura, mas não estávamos com disposição para ver nada. À noite fomos jantar perto do hotel e não foi nada de jeito e assim terminava o meu dia de aniversário que foi uma grande merda!

Templo da Literatura

Templo da Literatura

No dia seguinte, já com a decisão de não irmos a Moçambique tomada, andámos pela zona do Old Quarter, onde estávamos hospedados, depois fomos até à zona do Lago Hoan Kiem e ainda vimos a Catedral de S. José.

Lago Hoan Kiem

Lago Hoan Kiem

Na sexta-feira, 28 de Novembro, saímos de Hanói em direcção à ilha de Cat Ba, onde começaria um novo capitulo da nossa aventura pelo Vietname. O primeiro impacto de Hanói é interessante, com aquela confusão de motas e cada rua com um tipo de lojas diferente: há uma rua para lojas de sapatos, outra para lojas de ferragens, outra para lojas de relógios e por aí fora. Mas depois desse impacto inicial interessante, é só mais uma cidade enorme e cheia de barulho e confusão. E depois do stress no aeroporto de Singapura e do sucedido na embaixada de Moçambique, soube bem deixar a cidade para trás.

Daniel

É preciso é ter calma!

Chegámos a Singapura na tarde de Domingo 23/11/2014. O autocarro parou algures na cidade e andámos à toa uns bons 20 ou 30 minutos até encontrarmos uma estação de metro. A partir daí já tínhamos indicações de como chegar ao hostel.

Nesse primeiro dia em Singapura apenas saímos para jantar e aproveitámos para planear o próximo dia, que era o único que tínhamos para explorar a cidade.

Na segunda-feira de manhã fomos até à Ilha Sentosa, que fica a Sul de Singapura, é pequeníssima e foi transformada num parque de diversões estilo DisneyWorld. É um local interessante para passear com miúdos mas, para nós, era tudo muito embelezado e artificial. Ainda andámos por lá até à hora de almoço e comemos finalmente um Nasi Lemak, o prato nacional da Malásia, apesar de já estarmos noutro país.

Ilha da Sentosa

Ilha da Sentosa

Depois de almoço fomos até à zona da Marina e estava a ser muito agradável até começar a chover. Abrigámo-nos debaixo de uma cobertura, juntamente com cerca de 20 pessoas e a chuva continuou a cair, cada vez com maior intensidade. Não demorou muito até chegarem os trovões e rapidamente se formou uma tempestade enorme.

Cada vez que a chuva dava sinais de amainar logo recomeçava com uma força tremenda. Tivemos de esperar mais de duas horas até que, finalmente, a bonança chegou.

Com este episódio demos por terminada a nossa exploração da cidade e regressámos ao hostel.

Na Marina, antes da tempestade

Na Marina, antes da tempestade

Durante a tempestade

Durante a tempestade

Na terça-feira tínhamos o vôo para Hanói às 13:25 horas, por isso fomos para o aeroporto depois de tomarmos o pequeno-almoço. Esperámos que o balcão de check-in abrisse e quando fomos atendidos surgiram problemas inesperados. Apesar de já termos o visto do Vietname nos passaportes, não nos deixaram embarcar sem termos um bilhete de avião de saída do país. Dissemos que queríamos sair do Vietname por terra, provavelmente para o Laos, mas pediram-nos o visto do Laos, algo que não tínhamos pois pode-se obter esse visto na fronteira… A situação era completamente absurda e fiz um esforço tremendo para não me passar da cabeça.

Regra número 1: ”É preciso é ter calma!”. Não foi fácil manter a calma, mas fui até ao balcão de informações do aeroporto e deram-me uma password para aceder à rede WiFi. No tablet não funcionou… Liguei o computador e lá consegui ir à net começar a pesquisa de vôos de saída do Vietname.

Sabíamos que queríamos passar o Natal em Moçambique e que iríamos voar de Banguecoque para Maputo, por isso, sem tempo para planear nada decentemente, comprei dois bilhetes de Hanói para Banguecoque para 17 de Dezembro, por cerca de 150 €.

Recebi no e-mail a confirmação dos vôos e dirigimo-nos novamente ao balcão de check-in onde nos deram permissão para embarcar.

Em Hanói, no balcão da imigração é óbvio que ninguém nos pediu bilhete de avião nenhum, e o processo foi rápido e simples.

Começava de forma atribulada a nossa aventura no Vietname, mas à saída do aeroporto já estávamos mais bem-dispostos e animados.

Daniel

Ó Mar Salgado

Saímos do Nepal no dia 16 de Novembro, num vôo com destino a Kuala Lumpur, capital da Malásia.

O avião era enorme e encheu, maioritariamente, com passageiros Nepaleses, que à entrada para o avião se iam empurrando mutuamente na pressa de entrar, talvez na falsa expectativa de ficarem com um bom lugar ou talvez com medo de ficarem em terra. Percebia-se que era a primeira viagem de avião para a grande maioria dos passageiros e, na mente deles, acho, andar de avião deve ser mais ou menos a mesma coisa que andar num autocarro Nepalês…

Sabe Deus o esforço que aquelas pessoas tiveram de fazer para conseguirem reunir os 200 € que custava cada bilhete e que, especulo eu, eles imaginassem que os levariam ao El Dourado, a uma Terra Prometida que lhes daria uma vida melhor.

Chegámos a Kuala Lumpur às 04:00 horas da manhã, hora local. O vôo durou um pouco menos de 5 horas e não dormimos mais do que 3. Portanto, éramos dois zombies mal dispostos e rabugentos à chegada a Kuala Lumpur!

Fomos levantar dinheiro e apanhámos um autocarro que demorou cerca de 1 hora a chegar ao centro da cidade. Aí, tivemos de esperar um pouco para que o metro abrisse e depois foi só seguir as instruções que nos levariam finalmente até ao hostel. Só poderíamos fazer check-in depois de almoço mas pelo menos largámos as mochilas e a Catarina foi dormir para o sofá. Eu fiquei acordado a tentar pesquisar sobre o que iríamos fazer na Malásia mas o sono era tanto que não fiz nada de jeito.

Por volta das 09:00 horas tomámos o pequeno-almoço e fomos até à embaixada do Vietname tratar da papelada para obtermos o visto. O processo foi relativamente simples, rápido e caro. Cansadíssimos, regressámos ao hostel onde esperámos ad eternum até que pudéssemos finalmente ir descansar para o quarto.

As primeiras impressões de Kuala Lumpur eram extremamente positivas. A cidade é limpa, organizada e aparenta ter uma qualidade de vida excepcional. Mas estava um calor insuportável aliado a uma humidade relativa elevada, nós estávamos estoirados e, apesar de termos terminado o trekking há 5 dias, as nossas cabeças ainda estavam nas montanhas Nepalesas; depois de 3 semanas nas montanhas, não nos apetecia estar numa grande cidade.

Descansámos a tarde toda e à noite saímos para jantar. Depois de um mês no Nepal onde fomos extremamente cuidadosos com a alimentação (não queríamos, de todo, ficar doentes nas montanhas), podíamos finalmente comer “à grande”.

Deixámo-nos seduzir por um restaurante de rua que publicitava peixe à Portuguesa. Na minha cabeça formavam-se imagens de Robalos, Sargos, Garoupas, Pargos, Gorazes, Meros, Rodovalhos, todos escaladinhos e grelhados no carvão. Vá, até estava capaz de comer umas sardinhas mas calhou-nos uma Raia grelhada com um molho muito picante que estragou tudo e umas amêijoas vietnamitas com um molho adocicado. O que é que aquilo tinha de Português ainda hoje estou para descobrir.

No dia seguinte, terça-feira, 18/11/2014, fomos visitar as Batu Caves. Uma curta viagem de metro, seguida de uma igualmente curta viagem de comboio levaram-nos até lá. Um pequeno aparte para referir que os transportes públicos em Kuala Lumpur são de uma qualidade impressionante.

Visitámos as cavernas, tivemos cuidado para não sermos assaltados pelas centenas de macacos que por ali habitam, tirámos umas fotos e fomos mais uma vez derrotados pelo bafo que se fazia sentir. Almoçámos por ali, num restaurante Indiano, e no final do almoço a Catarina teve de ir à casa de banho aliviar a dor de barriga. Era o belo início de uma tarde inteira, no caso dela, e de uma noite inteira, no meu caso, passadas na casa de banho a rogar pragas às amêijoas que tínhamos comido na véspera. Conseguimos passar incólumes durante um mês no Nepal e, ao fim de dois dias no país mais desenvolvido em que tínhamos estado, já estávamos arrumados!

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Batu Caves

Apesar dos problemas da véspera, na quarta-feira saímos de manhã e fomos até ao parque Lake Gardens passear. Já desgastados pelo bafo, fomos visitar o Museu de Arte Islâmica e foi muito interessante.

A Malásia é um país Muçulmano, o primeiro onde estivemos mas, em vez de terroristas descobrimos um povo simpático, afável e tolerante. Claro que vimos inúmeras mulheres de lenço na cabeça, carruagens de comboio só para mulheres e claro que ouvimos várias vezes o som oriundo das Mesquitas a indicar que era altura dos crentes se virarem para Meca. Mas todas estas coisas são tão naturais para eles que nem nos pareceram estranhas.

Depois de visitarmos o Museu fomos até à embaixada do Vietname levantar os vistos e depois passeámos pela zona das Torres Petronas. Andámos por um parque impecavelmente cuidado, onde os miúdos podiam brincar e refrescar-se em pequenas piscinas e os graúdos podiam passear ou fazer jogging.

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Torres Petronas

Regressámos ao hostel e, à noite, saímos novamente para jantar e enchemos o bandulho com camarões, lulas, raia e umas quantas cervejas! E desta vez não houve consequências indesejáveis.

A encher o bandulho

A encher o bandulho

Na quinta-feira de manhã apanhámos um autocarro para Malaca, que em tempos idos foi Portuguesa, e deixámos Kuala Lumpur para trás. A estrada era excelente, assim como o autocarro. A Malásia revelava-se cada vez mais como uma Ásia diferente da que tínhamos visto até então: limpa, desenvolvida e sem ser caótica. As osgas e o calor insuportável, apesar de estarmos na época mais fresca, eram os problemas mais evidentes!

Em Malaca ficámos hospedados numa casa tradicional muito acolhedora. Chegámos ao início da tarde e ficámos por lá a descansar o resto do dia. Ao anoitecer saímos para jantar e comemos mais um peixe picante. Enquanto jantávamos vimos a primeira tempestade tropical, com chuva intensa e relâmpagos assustadores. Acabámos de jantar e esperámos cerca de meia hora que a tempestade passasse para voltarmos à guesthouse.

No dia seguinte fomos visitar a cidade. A primeira paragem foi em St. Paul’s Church, que é uma igreja erigida pelos Portugueses em 1521. Já completamente diferente do que era inicialmente, devido à posterior passagem dos Holandeses e dos Ingleses por Malaca e, claro, pelo desgaste natural que o tempo faz a tudo. Foi a primeira vez que tivemos um contacto tão directo com os feitos dos nossos antepassados e não pude deixar de sentir alguma nostalgia. Senti um orgulho difícil de explicar por estar num local a mais de 10.000 km de Lisboa, onde há quase 600 anos atrás os meus antepassados chegaram, depois de conquistarem esse mar enorme e de derrotarem o Adamastor. E ali chegados fizeram grandes negócios e levaram coisas novas de volta a Portugal, conquistando novamente o mar salgado.

Por outro lado apercebo-me que esses genes se perderam, que já não somos esse povo bravo, que primeiro derrotou os Mouros para ter uma Terra sua e depois a defendeu com unhas e dentes e até a Padeira ajudou e foi mais além e conquistou o mar e novos territórios na Ásia, em África e nas Américas.

E agora está tudo bem como está, acomodámo-nos à ideia de que temos de ser pequeninos e cumprir o que os “manos mais velhos” nos dizem para fazer. E percebo e aceito que o Quinto Império nunca se cumprirá…

Mas adiante, que esta conversa não leva a lado nenhum. Descemos a colina e fomos até à Porta de Santiago, que é o que resta da fortaleza construída pelos Portugueses em 1511.

Daí fomos até ao palácio do Sultão, que é uma réplica do original mas ainda assim muito interessante e visitámos também alguns monumentos do tempo dos Holandeses e dos Ingleses.

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Míudos a pousar para a foto junto à Porta de Santiago

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Famosa

À noite fomos novamente até à St. Paul’s Church onde estava a decorrer um festival de Artes Performativas. O ambiente era espectacular com aquelas danças e músicas esquisitas e as luzes na parede da igreja sem tecto.

Festival de Artes Performativas

Festival de Artes Performativas

No Sábado ficámos pela Guesthouse a relaxar até ao final do dia. Decidimos ir visitar uma Mesquita, que ainda ficava longe e, quando estávamos ainda a uns 15 minutos da Mesquita, começou a chover e mais uma tempestade tropical se formou. Estávamos junto ao mar e abrigámo-nos num alpendre juntamente com três pescadores. O cenário era assombroso: estava já de noite, chovia torrencialmente e os trovões pareciam que anunciavam o fim do mundo. Foi bom não estarmos sozinhos porque vi que os pescadores não estavam nada preocupados com a tempestade, então também não me preocupei muito. Passada cerca de uma hora a tempestade finalmente acalmou; claro que já não visitámos a Mesquita e voltámos para a Guesthouse, parando pelo caminho para jantar.

No Domingo de manhã voltámos à estrada e apanhámos um autocarro para Singapura. A viagem foi tranquila e sem peripécias dignas de registo.

Daniel